Desígnios & Desejos

Archive for the ‘contos’ Category

Nabutka

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Achava uma hipocrisia essa história toda, mas não deixaria de atender a um pedido de um velho moribundo. O seu velho.

Todos saíram quando entrou. Aproximou-se da cama com os olhos fixos no chão, tentando adiar ao máximo o momento no qual teria que olhar para a figura decadente e debilitada de seu pai.

“Este é o momento em que todos fazem as pazes e tudo fica bem nos filmes”, pensou ele, contendo as lágrimas. Ergueu a cabeça e viu que o velho observava-o com aprovação. Deviam ser as roupas, sóbrias.

Sentou-se na cadeira ao lado da cama. Parecia que o velho queria dizer algo.

- Nab…

- Como?

- Nabutka – repetiu o velho, quase inaudível.

- Babooshka!?

- Nabutka! – disse o velho com mais vigor, segurando seu braço firmemente.

- Ah, sim, Nabutka, papai – e o velho se foi. Para sempre.

Passou a semana seguinte inteirinha tentando descobrir, sem sucesso, o significado da única palavra que seu pai lhe dissera em mais de 30 anos. “Eu te amo” em sânscrito, talvez…

- O senhor pode contestar o testamento, se desejar – disse o advogado. Mas não era surpresa o velho não ter lhe deixado nada, além de uma caixa com fotografias e outras recordações de sua infância. Do tempo em que eram uma família. Talvez “nabutka” significasse “deserdado” em árabe.

- Não tenho interesse – respondeu ele, olhando para a madrasta, que pareceu pouco aliviada. É, o patrimônio do velho evaporou-se com os anos. E se ela não sabia o quanto custavam jóias, viagens e cirurgias plásticas não era problema dele. Ela era jovem o suficiente para arrumar outro marido.

Foi para casa a pé, abraçado à caixa de papelão. Seu tesouro. Ao abri-la, encontrou, emoldurada, uma aquarela que tinha pintado no jardim da infância para o dia das pais.

- Ah, papai, seu velho bobo… – disse para si mesmo, enquanto enxugava as lágrimas e tirava o pó do quadro.

Talvez “nabutka” fosse… fosse… NABUTKA PORTA-RETRATOS E MOLDURAS!!!

Com cuidado, removeu o fundo do quadro, encontrando um envelope com uma chave e um cartão com o endereço de uma agência bancária e o número do cofre.

- Papai, seu velho bobo! – gritou ele, rindo muito ao lembrar da cara de sua madrasta algumas horas atrás.

Finalmente, o “Dancing Queer Night Club” ia sair do papel.

Balançou a cabeça, deixando seu sonho de lado por um instante. Agora era hora de preparar o jantar e se arrumar. Logo seu homem estaria em casa.

—-

(c) Cintia BL

Escrito por Cintia

19/Setembro/2009 em 15:15

Publicado em contos

Através do Espelho

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Entrei no banheiro, sem me incomodar em trancar a porta atrás de mim. Coloquei o livro em um canto seco da pia, abri a torneira e molhei o rosto, a nuca.

Logo depois ele entrou, encostou seu corpo contra o meu, eu olhava para baixo, para a pia, não subi o olhar até o espelho, seria alguém já conhecido? Ele pareceu hesitar antes de começar a me apalpar, certamente um novato, mas logo passou a apertar meus seios, morder meu pescoço, minha orelha, soltei um gemido, ele mordeu a outra, dessa vez me contive. Ele tinha fumado antes de vir pra cá, fedia a cigarro, cerveja. Empinei um pouco a bunda, ele abaixou minhas calças, eram essas as regras, eu só ficava lá, eles faziam o resto. Enfiou dois dedos na minha buceta, e passava devagar a outra mão sobre a minha bunda, como quem passa os dedos sobre um livro, eram as mordidas, eu sabia.

“Menina, você é louca!”

Levantei os olhos para o espelho e olhei pra ele pela primeira vez. “Sério? Conta outra, e mete logo!”

Ele me penetrou, começou a beijar meu pescoço…

“Rápido e com força!”

“Garota, por que você faz isso?”

“Você quer que eu goze ou não?”

Ele fez o que eu pedi, metendo forte, com raiva, olhando pra baixo, enquanto eu o observava extasiada, mordendo os lábios para abafar os gemidos. Ele finalmente levantou a cabeça, nossos olhares se cruzaram no espelho, e voltei de novo a olhar para baixo, para a pia, até que ele saísse.

Me arrumei e saí do banheiro, deixando o livro na prateleira correta, ao lado de “Alice no País das Maravilhas”. Dei uma volta por entre as estantes e fui embora. Não quis retirar nenhum livro da biblioteca.

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©  Cintia BL

Nota: Este conto foi escrito em 2002 e publicado no meu primeiro blog, Diário de uma Vampira Faminta, e no Jornal da Praça, distribuído na Praça Benedito Calixto, em São Paulo (não sei a edição e estou com preguiça de procurar =P).

Escrito por Cintia

11/Janeiro/2008 em 23:15

Papo de Mulher

sem comentários

- Socorro, chamem o exército, tem um ET no banheiro!
- É máscara de pepino. Remove as impurezas e a oleosidade e deixa a pele com um aspecto mais saudável.
- Dizem que porra também é bom…
- Argh! Nojenta!
- ‘Tá. Vai me dizer que banho de lama e creme de placenta não é nojento?
- Tudo cientificamente testado em laboratórios, pra gente ficar mais bonita.
- Sei não, temos a mesma idade, mas minha pele é mais lisinha…
- Você faz uso tópico ou oral?

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© Cintia BL

Escrito por Cintia

23/Novembro/2007 em 13:41

Publicado em contos

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Telefone sem fio

com um comentário

 

- Alô
- Oi, linda, tudo bem?
- Tudo.
- Como foi o seu dia?
- Ahn… normal. E o seu?
- Também. Chegou faz tempo?
- Mais ou menos…
- Já trocou de roupa?
- Já.
- O que você ‘tá vestindo?
- Camisetão do Garfield.
- Então tira.
- Como?
- Tira!
- ‘Tá. – (…) – Já tirei.
- E a calcinha, ‘tá usando?
- Tô…
- Então tira também.
- Ok.
- Me diz, onde você está. No quarto, na sala…?
- No quarto…
- Certo, vai até a sala e abra as cortinas.
- Ahn? Mas eu tô pelada…
- Eu sei. Vá lá e abra as cortinas.
- Mas tem aquele vizinho…
- Anda logo!
(…)
- Pronto.
- Olha pra janela do apartamento do cara. Qual é mesmo? O 206?
- Isso.
- Tá acesa?
- Tá.
- Ele tá te olhando?
- Acho que não. As cortinas dele estão fechadas.
- Então interfona pra ele e fala pra ele olhar.
- O quê?!
- Faz o que eu tô mandando!
(…)
- Pronto.
- E…?
- O cara tá olhando… tá com o binóculo em uma das mãos e passando a outra no pau, por cima das calças.
- Pega uma cadeira e senta de frente pra janela.
(…)
- Pronto.
- Agora abra bem as pernas e comece a se tocar.
- Ahn?
- Anda, toca uma siririca, como se fosse pra mim, como se eu tivesse olhando.
(…)
- Hmmm…
- E o cara?
- Acho que tá batendo uma punheta.
- E você? Continua se tocando?
- Sim…
- Agora enfia os dedinhos… primeiro um, depois outro…
- Hmmm…
- Tá meladinha?
- Sim.
- Agora vai lá na sua geladeira e pega um pepino.
- Ahn? Eu num tenho pepino…
- Cenoura, banana, sei lá, algo roliço…
- Num tenho… num fui na feira…
- Pô, você num tem nada roliço aí na sua casa?
- Tem que ser de comer?
- Não, qualquer coisa…
(…)
- Serve um martelo de carne? O cabo do martelo…
- Sim…Agora senta de novo na cadeira e abra bem as pernas. Pegue o cabo do martelo e enfia na buceta.
- Hmmm…
- Isso, tira e põe devagar…
- Hmmm…
- Agora mais depressa e mais forte… até gozar…
(…)
- Tá gozando?
- Quase…
- Então tira o martelo e lambe o cabo… tudinho…
- Ok.
- Agora mete o cabo de novo na buceta… com força…
(…)
- Gozou?
- Sim…
- E o cara?
- Num sei… num tô vendo ele…
- Pra onde ele foi?
- Sei lá… Epa, tocaram a campainha.
- É o cara. Vai atender. Amanhã você me conta! Tchau!

—-

© Cintia BL

Escrito por Cintia

23/Novembro/2007 em 13:39

Nova seção: Contos!

com um comentário

Sim, eu escrevi contos um dia… Faz tanto tempo, mas me lembro que gostava de escrevê-los. Se não me falha a memória, também havia gente que gostava de lê-los. Então achei uma boa criar uma seção de contos meus por aqui. Estou colocando cada conto em uma página distinta, hierarquicamente subordinada à página Contos, na qual estou colocando os respectivos links. Então, quem quiser/puder dar uma olhada, eu agradeço. Os contos são curtinhos, não vai demorar nada! ;)

Porém, vou avisando desde já que um dos contos é de sacanagem e que pode não agradar os mais sensíveis, pois ele não tem a pretensão de ser artístico. Quem me conhece há pouco pode ficar surpreso com essa minha tendência à putaria. Quem me conhece há algum tempo provavelmente já sabe disso e já leu o conto.

Enfim, eu mesma acho que preciso escrever contos eróticos mais centrados na atmosfera (aliás, pretendo retomar essa discussão em algum post futuro, quando estiver com mais tempo). Acho que estou ficando mais mole com a idade. Assim, não dou dá. :o P

Escrito por Cintia

18/Setembro/2007 em 6:51

Publicado em contos, desejo, sacanagem

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